Numa noite de carnaval vestiu-se luxuosamente para tomar parte num festim, ao qual muitas das suas companheiras a haviam convidado. De volta, quando estava para se deitar, apareceu-lhe Jesus no mistério doloroso da sua flagelação, todo desfigurado pelos açoites, com o corpo ensanguentado, o semblante pálido e macilento, os lábios crestados pela sede e os divinos olhos cheios de lágrimas; e, depois de a haver fitado com olhar severo: «Filha cruel, disse-lhe, vê a que estado me reduziram as tuas vaidades! Tu estás perdendo um tempo infinitamente precioso de que deve-verás prestar rigorosas contas; atraiçoas-me e me persegues, depois de eu te haver dado tantas provas do meu amor».

Estas queixas e a vista dos sofrimentos do seu Senhor, feriram profundamente a sua alma sensível. Desatou em pranto desfeito, desnudou os ombros e os açoitou longamente com varas, para reparar as ofensas feitas a Jesus; enrolou o corpo com uma corda grossa, cheia de nós e apertou-a tanto, que a custo podia respirar. Quando quis tirá-la, teve que sofrer dores atrozes, porque ela lhe tinha amolgado profundamente a epiderme. Cingiu igualmente os braços com correntes de ferro e preparou um leito com paus nodosos para se torturar até mesmo durante o sono. Não se podem descrever todas as penitências que fez, em expiação do seu grande pecado, como ela chamava nas suas «memórias» a vaidade de ter tomado parte naquela festa carnavalesca. E, no entanto, ainda borrifada do sangue das disciplinas e banhada em lágrimas de arrependimento, não podia resolver-se a romper, de vez, com o mundo e os seus prazeres.
